Arquivos de Tag: Rodrigues

Meu Pai, Meu Mestre

Muitas pessoas passam pela nossa conturbada vida, porém poucas se dedicam a nos tornamos ser humanos melhores.

A não ser pelo fator biológico eu não tive um pai, mas tive algo bem melhor que isso, tive um avô dedicado que se propôs a me ensinar tudo que um homem precisa: trabalho, respeito e dignidade:

O Sr. Rafael Rodrigues Moreira nasceu no dia 04 de novembro de 1939 e faleceu no dia 28 de dezembro de 2012. Seus 75 anos de vida foram de muito trabalho, bom senso e sabedoria.

Quando conheci, ele já passava dos 50 anos, era um homem de estatura baixa, porém extremamente forte, corajoso e de um bom humor invejável. Era apaixonado pelos atos simples da vida e se dedicava ao trabalho no campo ou ao minucioso serviço de pedreiro que fazia. Nunca gastava um centavo sequer sem responsabilidade, adorava relógios da marca Oriente, camisas de manga comprida e só trabalhava com a assistência de um chapéu de palha. Sua comida favorita era o macarrão branco, sem molho, algo parecido com “ao alho e óleo” que muitos apreciam. Gostava de comer jiló, inhame, cará, taioba, jurubeba e mandioca frita.

Era religioso, católico como mais de 80% dos brasileiros da sua época, porém não era supersticioso. A chuva era o período climático que mais o motivava, descia para ver o rio das almas toda vez que um começo de enchente se iniciava. Gostava de ouvir músicas sertanejas de origem, daquelas que contavam causos de estremecer o coração. Cantava as mesmas e compunha suas próprias canções… Mas quando o conheci já era um pouco desmotivado com a viola pois seu xará e parceiro, Rafael Leite, havia falecido.

Tinha duas paixões na vida: as folias de “Reis” e a do “Divino” e o gole de agua ardente que nunca dispensava antes das refeições. Porém, ficou sem se embebedar por mais de 30 anos, tomando apenas aquela dose que chamava carinhosamente de aperitivo.

Em casa era um homem de exemplos e obrigações, levantava sempre de madrugada, tratava a todos como Sr. e Sra., inclusive as crianças. Gostava de animais de estimação e obrigava a todos a dormir as 20hs, o que não agradava a muitos (inclusive a mim) mas que criava uma certa paz e harmonia na casa que construiu que se mantem até hoje.

Sabia ler, escrever e fazer contas expressivas, mesmo que de modo particular usando formulas obsoletas ou esquecidas. Era sábio pois sabia ouvir os outros antes de se manifestar. Gostava de bons conselhos e gostava de ouvir os sermões de Domingo de queixo em pé, pois rezava com as mãos estendidas e olhos abertos, seu coração não carregava rancor e perdoava a todos, pedindo também perdão sempre que errava.

Eu nunca o chamei de “Pai”, nem ele o pedira ou quisera, mas eu sempre fui seu discípulo, o que torna ele meu mestre. Então, Sr. Rafael, obrigado por me ensinar o que eu precisava para hoje estender um sorriso largo durante os dias de sol e dormir tranquilamente enquanto a chuva cai. O Sr. nunca será esquecido e seu bom senso será compartilhado com a futura geração.

Ouvindo a música favorita do Sr. Rafael: Menina da Aldeia.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: